“Há, basicamente, dois tipos de intérpretes: os que se consagram à música do passado; e os que fazem da música viva, presente, a paixão de suas investidas. Em geral, os primeiros não conseguem ir muito além de uma visão mais ou menos datada, em que pesem tanto seus valores enquanto intérpretes quanto o imprescindível legado da História, a qual todos os criadores atuais minimamente responsáveis devem de toda forma amar, ainda que não acima de qualquer suspeita (pois que a História é feita pelos homens, e somente isso já justifica certa desconfiança, na medida certa para que possamos desfrutá-la sem que nos deixemos intoxicar por ela, deixando de reconhecer o papel da invenção no presente). Confinado ao repertório já cristalizado, o primeiro tipo de intérprete mostra-se, em geral, avesso à atualidade mais radical da música; seu espírito, independentemente de sua competência interpretativa, revela-se como inflexível, e sua mente, enferrujada. São, por um lado, excelentes músicos, e, por outro, músicos medíocres. Mas felizmente há os outros intérpretes, inquietos, comprometidos com o andar (às vezes necessariamente lento) da carruagem, companheiros de viagem dos compositores atuais, atuantes e sobretudo inventivos, que, na verdade, nada mais são que os Liszts, Chopins ou Schumanns de outrora. Joaquim Abreu (o Zito) e Paulo Passos inserem-se, com seu notável Duo, nessa louvável categoria de intérpretes inconformados, exigentes, perfeccionistas e especuladores, no melhor sentido da palavra. Encorajam compositores a novas criações, as interpretam com destreza ímpar, e divulgam a nova música. São, em essência, músicos tão radicais quanto nós, compositores especulativos. E a eles agradecemos de coração, mente e ouvidos abertos, pois que sem eles a linguagem musical poderia perecer ou, no máximo, sair da carruagem e andar a pé.”
Flo Menezes – compositor